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A Ambição Estratégica e Cultural não pertence ao CEO

Escrito por Genilda Saji | Aug 4, 2026, 7:54:02 PM

A Ambição Estratégica e Cultural não pertence ao CEO: o desafio da influência entre Investidores, Conselho e Liderança Executiva

Durante muitos anos, tornou-se comum afirmar que "o CEO define a estratégia" ou que "a cultura é responsabilidade do CEO". Embora essas afirmações contenham parte da verdade, elas simplificam excessivamente um tema que, sob a ótica da governança corporativa, é muito mais sofisticado.

 

Os manuais de governança mais prestigiados deixam claro que existe uma arquitetura deliberada de responsabilidades: os investidores representam a propriedade, o Conselho de Administração exerce a governança e o CEO lidera a gestão. Cada um desses atores possui autoridade sobre determinadas decisões e, ao mesmo tempo, depende profundamente da capacidade de influenciar os demais para que a empresa desenvolva uma ambição estratégica e cultural consistente e sustentável.

Essa talvez seja uma das competências menos discutidas da alta liderança: liderar sem possuir autoridade formal sobre todas as decisões que determinam o futuro da organização.

 

A ambição nasce da governança, mas ganha vida na gestão

Uma empresa possui, na prática, duas grandes ambições inseparáveis.

A primeira é a ambição estratégica, que responde à pergunta:

"Onde queremos chegar?"

A segunda é a ambição cultural, que responde:

"Como precisamos pensar, decidir e agir para chegar até lá?"

Nenhuma dessas ambições pode ser construída isoladamente.

Os investidores definem a expectativa de criação de valor e o horizonte de longo prazo. O Conselho traduz essas expectativas em diretrizes estratégicas e supervisiona sua coerência com os riscos e a sustentabilidade do negócio. O CEO transforma essa direção em uma estratégia executável e em um modelo de gestão capaz de mobilizar milhares de decisões cotidianas. Seus reportes diretos, por sua vez, convertem essa visão em prioridades operacionais e comportamentos concretos.

Quando qualquer elo dessa cadeia falha, estratégia e cultura deixam de caminhar juntas.

 

O papel dos investidores: definir o "porquê"

Os investidores — sejam acionistas controladores, famílias empresárias, fundos ou demais proprietários — raramente participam da formulação detalhada da estratégia. Seu papel é anterior.

Eles estabelecem a expectativa de criação de valor, o nível de risco aceitável, o horizonte temporal dos investimentos e os princípios que não devem ser negociados.

Essas decisões moldam o espaço dentro do qual a estratégia será construída.

O desafio dos investidores é resistir à tentação de administrar a empresa. Sempre que a propriedade passa a interferir diretamente na gestão cotidiana, enfraquece o Conselho, reduz a autonomia do CEO e cria ambiguidades decisórias.

Ao mesmo tempo, investidores precisam permanecer abertos à influência da gestão. Afinal, a realidade competitiva evolui mais rapidamente do que qualquer tese de investimento construída anos antes.

 

O Conselho: guardião da direção estratégica e da coerência cultural

O IBGC, por exemplo, posiciona o Conselho como o elo entre propriedade e gestão, responsável pela direção estratégica da companhia e guardião do sistema de governança.

Isso significa que sua principal responsabilidade não é administrar, mas assegurar que a organização caminhe na direção correta.

Mais recentemente, essa responsabilidade passou a incluir também a cultura organizacional.

O Conselho não desenha programas culturais nem define campanhas de comunicação. Sua contribuição consiste em fazer perguntas estratégicas:

    • A cultura atual é compatível com a estratégia aprovada?
    • Os comportamentos da liderança favorecem ou bloqueiam a execução?
    • Os incentivos reforçam os valores desejados?
    • O CEO está construindo as capacidades organizacionais necessárias para o futuro?

Assim, cultura deixa de ser um tema restrito ao RH e CEO e torna-se um ativo estratégico supervisionado pela governança.

 

O CEO: principal arquiteto

É justamente aqui que surge uma aparente contradição.

Embora o CEO seja o principal responsável pela execução da estratégia e pela construção da cultura, ele não possui autoridade para definir sozinho a ambição estratégica da organização.

Sua responsabilidade é diferente.

Cabe ao CEO compreender profundamente o ambiente competitivo, antecipar tendências, ouvir clientes, analisar capacidades organizacionais e transformar tudo isso em propostas robustas para discussão com o Conselho.

Em outras palavras, o CEO é o principal formulador das alternativas estratégicas, o principal arquiteto da ambição cultural, mas sua legitimidade nasce da qualidade de sua influência, não da autoridade para decidir isoladamente.

O mesmo ocorre na cultura.

O CEO não escolhe, sozinho, quais valores devem caracterizar a organização. Entretanto, ninguém influencia mais a cultura do que ele.

Cada decisão de investimento, cada promoção, cada reconhecimento, cada reação diante de uma crise comunica à organização quais comportamentos realmente importam.

Por isso, costuma-se dizer que o CEO é o maior "designer" da cultura, ainda que não seja seu proprietário institucional.

 

Os reportes diretos: onde estratégia se transforma em comportamento

Existe ainda um grupo frequentemente subestimado: os executivos que respondem diretamente ao CEO.

São eles que traduzem a ambição corporativa para as diferentes funções do negócio.

Uma estratégia brilhante pode fracassar quando cada vice-presidente interpreta prioridades diferentes.

Da mesma forma, uma cultura desejada dificilmente se consolida quando cada diretor modela e recompensa comportamentos distintos.

Esses líderes ocupam uma posição única: influenciam simultaneamente o CEO, seus pares e milhares de colaboradores.

Na prática, são eles que transformam princípios abstratos em experiências concretas.

 

A influência como competência central do CEO

Talvez a maior lição da governança moderna seja reconhecer que autoridade e influência não são a mesma coisa.

O CEO possui autoridade sobre a gestão. Mas precisa influenciar o Conselho. Precisa influenciar os investidores. Precisa influenciar seus executivos. E precisa influenciar toda a organização.

Essa influência não acontece por persuasão pessoal apenas. Ela é construída por meio de cinco mecanismos fundamentais:

1. Evidências

Grandes decisões estratégicas raramente são aprovadas apenas por convicção. O CEO precisa apresentar análises robustas, dados de mercado, cenários e riscos.

2. Narrativa

Os conselheiros não aprovam apenas números. Eles aprovam uma história plausível sobre como a empresa criará valor no futuro.

3. Construção coletiva

Estratégias impostas tendem a gerar baixa adesão. CEOs bem-sucedidos envolvem conselheiros desde a formulação das alternativas, permitindo que a decisão final seja percebida como uma construção conjunta.

4. Credibilidade

A influência depende do histórico de execução. Quanto maior a consistência entre discurso e entrega, maior será a confiança do Conselho para apoiar movimentos mais ousados.

5. Cultura de diálogo

Os melhores CEOs não utilizam as reuniões do Conselho para defender decisões já tomadas. Utilizam esse espaço para construir entendimento, explorar dilemas e enriquecer o pensamento estratégico.

 

A mesma lógica vale para a cultura

O CEO também não impõe a cultura desejada.

Ele influencia. Influencia quando explica por que determinados comportamentos serão essenciais para executar a estratégia. Influencia quando demonstra que mudanças culturais reduzem riscos, aumentam inovação, melhoram a experiência do cliente ou fortalecem a capacidade competitiva. Influencia quando conecta cultura aos resultados do negócio, deixando de tratá-la como um tema exclusivamente humano.

Nesse sentido, a cultura deixa de ser uma iniciativa paralela e passa a ser compreendida como uma capacidade organizacional estratégica.

 

Conclusão

Uma empresa madura não concentra a definição do futuro em uma única pessoa. Ela distribui responsabilidades de maneira clara e cria mecanismos para que diferentes perspectivas sejam integradas.

Os investidores definem a intenção de criação de valor.

O Conselho transforma essa intenção em direção estratégica e supervisiona sua coerência.

O CEO converte essa direção em estratégia executável, mobiliza a cultura necessária para sustentá-la e influencia continuamente os níveis superiores por meio de evidências, diálogo e credibilidade.

Os executivos que lhe reportam traduzem essa ambição em decisões, prioridades e comportamentos cotidianos.

Quando cada stakeholder compreende seu papel e exerce influência respeitando os limites de sua autoridade, a organização deixa de depender de lideranças heroicas e passa a desenvolver uma capacidade muito mais valiosa: a construção coletiva de uma ambição estratégica e cultural capaz de atravessar ciclos de gestão, sucessões de liderança e mudanças profundas no ambiente de negócios.

Essa talvez seja a essência da boa governança e da execução consistente da estratégia.

 

 

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